GTPS na mídia
24.12.21

Tempo de ajustes na pecuária brasileira

Assinado durante a 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP26), em novembro, o acordo global para a redução das emissões de metano traz novos desafios para a pecuária brasileira. Como a fermentação entérica dos ruminantes é uma dos principais fontes do gás poluente, a criação de gado terá de se adaptar para fazer a sua parte. O acordo estabelece a meta de cortar em 30% as emissões de um dos principais responsáveis pelo aquecimento global até 2030. O Brasil assumiu o compromisso junto com outros 102 países.

O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), entende que o país já vem trabalhando com estratégias para reduzir a emissão de metano na pecuária. Entre as técnicas já utilizadas estão o melhoramento genético de pastagens, de modo a desenvolver alimentos mais digestíveis, e o melhoramento genético dos animais, que permite um abate mais precoce. Ao permanecer menos tempo no campo, o animal irá emitir menos metano. Com relação à compensação das emissões, a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) é considerada uma ferramenta importante.

Dono do maior rebanho comercial de bovinos do mundo, com mais de 210 milhões de cabeças, o Brasil enfrenta a necessidade de mensurar corretamente as emissões provenientes destes animais. Afinal, o país conta com diferentes sistemas produtivos, com a presença do gado em biomas diversificados como o Cerrado e o Pampa. A gerente executiva da Mesa Brasileira de Pecuária Sustentável (GTPS), Luiza Bruscatto, acredita que haja fazendas com balanço de carbono negativo (ou seja, que capturam mais gases do que emitem), graças ao uso de tecnologia, ferramentas de gestão e organização do rebanho dentro da área produtiva. “Ao mesmo tempo, temos um desafio com áreas de pastagens degradadas, fazendas que ainda não têm alta produtividade e que tem potencial para melhorar”, observa.

Um dos focos da discussão, que divide opiniões, é avaliar se há necessidade de reduzir o rebanho para atingir a meta de limitar a emissão de gases. Luiza acredita que o caminho seja o de aumentar a produtividade sem reduzir o número de cabeças. A aceleração da engorda e a redução da idade de abate, por exemplo, poderiam diminuir o impacto ambiental sem fazer a pecuária perder competitividade. “O desafio principal é o aumento de produtividade. Como realizar isso? Melhorando informação, tecnologia e educação”, responde a executiva. Neste sentido, uma contribuição do GTPS é uma ferramenta gratuita chamada Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável (Gips), disponível no site da instituição, que auxilia o produtor por meio do preenchimento de uma série de indicadores relacionados à propriedade rural.

Principal gás emitido pela pecuária, o metano permanece na atmosfera por até 20 anos e tem potencial de aquecimento global 25 vezes maior do que o do dióxido de carbono. A boa notícia, segundo a pesquisadora Cristina Genro, da Embrapa Pecuária Sul, é que a pecuária já dispõe de ferramentas para fazer esse enfrentamento. Uma destas técnicas é o manejo adequado das pastagens. Pesquisa da própria Embrapa demonstrou que a adoção em larga escala de pastagens com altura entre 23 e 30 centímetros poderia alcançar até 14% da meta de mitigações do setor agrícola estabelecida pelo governo brasileiro no Acordo de Paris. “Quando a quantidade de animais está ajustada à quantidade de pasto num piquete ou numa pastagem, seja ela nativa ou cultivada, as emissões são menores”, explica Cristina. Mas as alternativas vão além. A pesquisadora ressalta que o uso de leguminosas nos sistemas pastoris ajuda a garantir um melhor valor nutritivo e reduz as emissões de metano, além de atuar na fixação de nitrogênio no solo, reduzindo a necessidade de utilização dos fertilizantes nitrogenados – derivados do petróleo, que é uma fonte de energia não renovável. A genética animal também pode ser uma aliada na redução de emissões na pecuária.

Independentemente do acordo firmado na COP26, o mercado já dá sinais de que caminha em direção a uma produção sustentável. O consumidor com maior poder aquisitivo tem observado esse nicho com atenção, não apenas no Brasil. No início de dezembro, o Uruguai tornou-se o primeiro país da América do Sul a exportar uma carga de carne carbono neutro, para a Suíça. “Não é uma falácia, é uma realidade que veio para ficar”, resume o professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Por isso, ele acredita que, mesmo que não haja mudanças a curto prazo, a conscientização para a questão das emissões na pecuária é cada vez maior, inclusive em busca de oportunidades que possam surgir a partir das certificações para serviços ambientais. “Trará novos desafios na maneira de produzir, mas certamente também cria oportunidades para aqueles que estão olhando mais para os recursos naturais”, analisa o especialista.

Adoção de novos métodos depende de assistência

Para que as tecnologias que minimizam o impacto ambiental da pecuária cheguem ao campo em grande escala, o maior desafio está relacionado à assistência técnica e extensão rural (Ater). Segundo a engenheira agrônoma Marina Piatto, diretora executiva do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), o investimento nesta área é a única maneira de fazer o serviço chegar a todos os produtores de forma rápida, de modo a cumprir a meta de redução de metano até 2030. “Quando você defende a redução de emissão, está diretamente buscando aumento de tecnologia e de produtividade”, resume, para sustentar que isso só será alcançado em grande escala por meio da Ater.

Muitas das tecnologias a serem adotadas estão baseadas em ferramentas simples, segundo a agrônoma, como fazer piquetes, inserir uma variedade de pastagem adequada à propriedade, monitorar o ganho de peso individual, entre outros. “Não são grandes tecnologias, mas é um conhecimento que não chega para o produtor”, observa. A falta de adoção destas técnicas pode acarretar em uma baixa eficiência e em uma alta emissão de metano por quilo de carne produzido. A agrônoma chama a atenção também para a necessidade de se pensar na inclusão da agricultura familiar nesses esforços.

A Ater é vista como uma ferramenta fundamental para que o Brasil alcance a redução da idade de abate dos bovinos, considerado um dos pontos-chave para a redução das emissões de metano. Segundo o Ministério da Agricultura, nos últimos dez anos o Brasil reduziu de 48 para 36 meses o tempo médio para o abate. A China, maior importador da carne bovina brasileira, adquire carne proveniente de animais com até 30 meses. Mas há casos em que a idade de abate é ainda menor. Marina observa que, em 2021, o preço da carne em alta e o embargo da China à carne brasileira levaram a uma redução dos abates, o que fez com que um número maior de animais permanecesse no campo. “Isso aumentou a emissão anual proveniente da pecuária”, observa.

O melhoramento genético dos animais, o manejo da pastagem e o uso de aditivos desenvolvidos para melhorar a digestibilidade e reduzir a fermentação entérica também podem auxiliar a alcançar um abate mais precoce. “Melhores práticas agrícolas de manejo da pastagem e a melhoria na nutrição animal vão ajudar o animal a ganhar peso mais rapidamente e ser abatido antes”, explica Marina. Quanto aos mecanismos de compensação das emissões, o destaque é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que pode neutralizar as emissões, dependendo do número de árvores, além de garantir conforto térmico e bem-estar aos animais. “Já está comprovado que os animais, quando têm mais sombra e mais qualidade ambiental, engordam mais rápido, e aí se tem uma carne de melhor qualidade e precoce”, analisa a agrônoma.

Marina, que participou da COP26 em Glasgow, acredita ser possível alcançar as metas relacionadas ao metano sem a necessidade de reduzir o rebanho bovino no Brasil. “Isso nunca foi falado. Seria muito frustrante”, ressalta. De acordo com ela, o caminho a ser adotado é o inverso, com maior adoção de tecnologia, verticalização e aumento de produtividade por hectare.

Genética animal

O melhoramento genético animal pode ser um aliado na redução das emissões de metano pela pecuária. Realizada anualmente desde 2002 pela Embrapa Pecuária Sul, a Prova de Avaliação a Campo (PAC) de reprodutores irá incluir no seu escopo a avaliação dos animais que tenham menos potencial de emissão de metano. “É uma característica que pode ir junto com o sêmen do animal e ser rapidamente difundida no Estado”, explica Cristina Genro, pesquisadora da Embrapa.

Os testes devem ter início em fevereiro de 2022, com exemplares das raças Hereford, Braford e Charolês. De acordo com Cristina, a ideia foi muito bem recebida pelas associações de criadores de bovinos destas raças.

Desde que teve início, a prova faz a avaliação de quantos quilos de alimento o animal precisa para alcançar um quilo de ganho de peso. O mesmo será feito com a emissão de metano: ou seja, haverá um indicativo de quantas gramas de metano serão emitidas para cada quilo de peso obtido, explica Cristina. O teste é feito em sistema de confinamento. A medição usa um tubo, colocado nas costas do animal, para armazenar o metano produzido por cada exemplar. Iniciativa semelhante já ocorreu no Brasil Central, com animais da raça Nelore.

De acordo com Cristina, pesquisas realizadas no âmbito da rede Pecus, que faz a avaliação dos diferentes sistemas de produção de bovinos de corte do país, mostram que as emissões da pecuária no Brasil estão aquém do calculado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas. Os fatores de emissão para urina e fezes do gado também foram superestimados, segundo a pesquisadora. “Se a nossa pecuária continuar como está (em 2030), vamos ter uma pecuária muito sustentável e uma carne muito saudável para oferecer para a população”, acredita.

Pecuária é parte da solução, não do problema

Criador de bovinos das raças Hereford e Braford, Eduardo Eichenberg acredita que a pecuária gaúcha e brasileira seja parte da solução, e não do problema, no que se refere à emissão de gases do efeito estufa. Na Estância Silêncio, com propriedades localizadas em Alegrete, Quaraí e Uruguaiana, o produtor adota práticas que, segundo ele, visam o incremento de produção e produtividade e, ao mesmo tempo, contribuem para que a propriedade seja carbono neutro. Entre estas práticas estão o ajuste de carga (quantidade de quilos ou animais por área, dependendo da época do ano), diferimentos estratégicos (pousios), roçadas estratégicas de campos e implementação e ajustes de cargas de pastagens cultivadas de inverno e verão.

O pecuarista observa que a pesquisa e a ciência mostram que, em uma pecuária a pasto, quando bem conduzida, respeitando-se as alturas ideais de pastejo, a fixação de carbono é maior, enquanto que as emissões, pelos animais, são menores, gerando uma atividade neutra, ou até negativa. Além disso, Eichenberg cita que as práticas de manejo das pastagens, com maior oferta e disponibilidade de forragens para os animais, vão ao encontro de uma maior produtividade. “Ou seja, manejando os pastos corretamente, não só produziremos mais quilos por área, melhorando a renda da propriedade, como também estaremos contribuindo mais para a mitigação dos gases do efeito estufa”, resume.

Na opinião do criador, há uma generalização grande quando se fala de emissões provocadas na pecuária e se compara sistemas muito diferentes nas diversas regiões do mundo. “A pecuária brasileira, e, especialmente, a gaúcha, é praticamente toda a pasto. Mais de 95% do gado destinado ao abate é engordado a pasto, o que, por si só, já configura um baixo impacto em relação às emissões, uma vez que as plantas fixam o carbono que a atividade emite”, explica.

Eichenberg vê o acordo para a redução do metano como um passo importante, desde que sejam respeitadas as particularidades de cada país em relação às demandas e potencialidades de geração de energia. “Se migramos para fontes muito caras, mesmo que renováveis, os países ricos terão uma grande vantagem, e os pobres e emergentes terão mais dificuldade de crescimento”, observa.

A Estância Silêncio atua com ciclo completo das raças Hereford e Braford, tendo completado 100 anos de seleção em 2020. Os animais produzidos no local atendem aos requisitos dos programas Carne Certificada Hereford e Estâncias Gaúchas.

Setor rural entende que produtor já faz a sua parte

O acordo para a redução das emissões de metano foi bem recebido entre as entidades que representam os agricultores gaúchos, embora ainda haja desafios a serem superados. O entendimento do setor é de que o produtor rural já faz a sua parte na preservação ambiental e não tem nada a temer com relação à meta estipulada pela COP26.

O coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes, considera que o acordo para redução do metano é “fantástico” para o setor agropecuário porque ratifica a posição da atividade agrossilvipastoril. “Finalmente tivemos um evento onde deixamos de ser o problema. O grande vencedor foram as atividades produtivas como parte da solução”, afirma. Uma iniciativa em conjunto com o governo do Estado deverá ser lançada em janeiro de 2022 com o objetivo de mostrar à sociedade como as atividades agrossilvipastoris atuam com relação à emissão de gases. “Todas as nossas atividades são sequestradoras de carbono, tendo neutralidade ou sequestro de carbono no solo”, resume Lopes.

O gargalo, segundo ele, está relacionado às metodologias para quantificar as emissões e o quanto é sequestrado, além da certificação destas informações e da monetização para que as práticas de desenvolvimento sustentável sejam colocadas no mercado para serem comercializadas como medida de mitigação.

O 1º vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Eugênio Zanetti, afirma que o setor da agricultura familiar tem buscado a implementação do pagamento por serviços ambientais para as pequenas propriedades, o que seria um estímulo à preservação.

“Junto com o CAR (Cadastro Ambiental Rural) estava previsto o pagamento por serviços ambientais, até hoje não efetivado”, ressalta. Outro gargalo citado pelo dirigente é a questão da assistência técnica, que considera a principal demanda da agricultura familiar. “Hoje a assistência técnica que nós temos ou é de escritório ou é das empresas querendo vender algo para o produtor”, reclama Zanetti. “Aquela assistência técnica de acompanhamento, para o agricultor melhorar o seu processo produtivo, está cada vez mais escassa”, complementa o 1º vice-presidente da Fetag.

Características locais equilibram a conta

Um dos mais poderosos gases de efeito estufa, o metano tem sido um dos responsáveis pelo aquecimento global desde a época pré-industrial. A professora Débora Roberti, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que o aumento da concentração de metano amplia a absorção de energia, aquecendo a atmosfera. “Estamos vendo que esse aquecimento tem provocado principalmente eventos extremos mais frequentes”, constata, citando como exemplos longos períodos sem chuva e tempestades.

Devido à sua forma química, o metano tem um poder de aquecimento mais de 20 vezes maior do que o dióxido de carbono (CO²). Mas, de acordo com a professora, a emissão de metano deve ser considerada de acordo com as especificidades regionais. A pecuária existente no Bioma Pampa, por exemplo, é diferente das de outros ecossistemas em função das gramíneas que caracterizam o ambiente. “A criação de gado emite metano, mas quando se converte isso tudo em CO² equivalente, aqui na nossa região, a produção absorve os gases do efeito estufa”, detalha Débora. Por isso, uma pesquisa feita sobre a pecuária desenvolvida nos Estados Unidos, por exemplo, não poderia ser aplicada ao Rio Grande do Sul.

A pecuária, no entanto, não é a única fonte de metano no setor agropecuário. Débora cita a produção de arroz irrigado como uma grande emissora deste gás poluente. “Em geral são ambientes alagados, onde vivem os organismos anaeróbicos. As bactérias metanotróficas necessitam destes ambientes que sejam livres de oxigênio para se multiplicarem”, observa. O Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) desenvolve em parceria com a Ufrgs e a Ufsm, desde o início dos anos 2000, pesquisas com o objetivo de entender e identificar os manejos mitigadores.

*Artigo publicado originalmente no portal Correio do Povo

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