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06.08.22

Produção de carne no Brasil começa sua segunda revolução

Importador de carne bovina congelada da Europa nos períodos de entressafra até os anos 80, o Brasil se transformou em meados dos anos 2.000 no maior exportador da commodity, posição consolidada hoje com 22% de todo o comércio internacional. Uma revolução puxada pela profissionalização dos pecuaristas, que, auxiliados pela pesquisa, introduziram tecnologias para melhorar a alimentação, a genética, o manejo e a saúde dos animais.

Pois uma segunda revolução começa a acontecer e pode ser ainda mais veloz, e profunda, do que a anterior. Um estudo do Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne), da Embrapa, aponta que até 2.040, dos atuais 1,4 milhão de pecuaristas, cerca de 50% vão deixar a atividade. Naturalmente, vem a pergunta: Ué, se o negócio vinha tão bem, por que tanta gente vai cair fora? O CiCarne aponta que, na última década, houve “uma deterioração crescente desses ativos, decorrente da forte pressão de custos”. Por outro lado, há um desafio de adaptação, de mudança nos processos e modos de produzir, para aumentar a eficiência e a competitividade, ao mesmo tempo em que se promove a preservação do meio ambiente e a redução das desigualdades sociais e econômicas.

“A agenda de sustentabilidade está vindo muito rápido, por pressão da sociedade, por pressão do mercado consumidor. Se eu não tenho como mostrar qual é a pegada de carbono que estou entregando, não vou conseguir vender. Hoje estamos vendo a discussão internacional sobre a carbon tax, a taxa de fronteira para emissões de carbono de produtos que entram na Comunidade Europeia. Não adianta só rastrear o boi abatido, tenho que rastrear os indiretos, tenho que dizer de onde veio esse bezerro, onde foi recriado e engordado. É absolutamente inexorável, é irreversível o avanço dessa agenda”, assegura José Carlos Pedreira de Freitas, coordenador executivo da Liga do Araguaia, uma associação de 62 pecuaristas do Mato Grosso que busca se antecipar às tendências do mercado.

Certificações para agregar valor e garantir mercado à carne

A Liga do Araguaia funciona em cima de projetos, custeados em parte pelos pecuaristas, em parte por algum parceiro. Em um deles, envolvendo 24 fazendas e parceria com a Dow, num período de cinco anos a tecnificação de 80 mil hectares de pastagens contribuiu para reduzir a idade de abate dos animais, deixando de emitir 280 mil toneladas de CO2 equivalente. Associados à Embrapa, pecuaristas criaram um selo de baixo carbono; em cooperação com a JBS, outro projeto trouxe ferramentas de gestão profissional às propriedades.

E há dois meses um grupo de seis fazendas assinou contrato com o Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam) para não abrir áreas de cobertura nativa excedente ao obrigatório da Reserva Legal. É dinheiro da Alemanha e da Noruega que “compra” a preservação das florestas por um período de três anos de contrato. O pagamento pelo serviço ambiental varia entre R$ 40 mil e R$ 400 mil por fazenda. “Tem todo um compliance que a fazenda precisa atender. Daqui a três anos, o fazendeiro vai decidir se quer continuar no projeto. Se não quiser, pode abrir a área e fazer o que quiser”, relata Pedreira.

Há margem para aumentar lotação de bois por hectare

Para além das mudanças voltadas à produção mais sustentável, existe ainda muita margem para ganhar em termos de produtividade. O coordenador do CiCarne, Guilherme Malafaia, lembra que a lotação média da pecuária no País é de 1,2 cabeça de boi por hectare/ano. “Sem inventar moda”, diz Malafaia, “é possível dobrar isso com tecnologias disponíveis, como o bom manejo dos pastos, planejamento e controle dos custos, suplementação da alimentação, melhor genética, uso de sal proteinado, e cuidados com a boa saúde animal”.

“Por incrível que pareça, a gente ainda tem um grande volume de pecuaristas que não fazem nem custo de produção, para saber quanto custa produzir a arroba de carne. A pecuária de extrativismo precisa ser superada, por bem ou por mal. Porque as cobranças estão aí, como o acordo que o Brasil assinou para reduzir as emissões de metano”, aponta o pesquisador. Ele se refere ao Compromisso Global de Metano, assinado no ano passado junto com outros 103 países, durante a COP26, para reduzir em 30% as emissões até 2030.

Dona de um rebanho flutuante de cerca de 218 milhões de cabeças, a pecuária de corte brasileira é marcada pelo contraste entre bolsões de atraso de animais pés-duros, criados de uma forma quase extrativista, até espécies de alta estirpe, terminadas em sistema de confinamento. Dentre as ações de vanguarda, o associativismo tem feito a diferença, não só na Liga do Araguaia, como em iniciativas similares envolvendo cooperativas no Sul do País.

Modelo associativo tem cases de sucesso na Cooperativa Aliança e na Aproccima

No início dos anos 2.000, vivendo numa região de forte cooperativismo agrícola, pecuaristas de Guarapuava (PR) resolveram experimentar o modelo associativo para explorar um nicho de carne de mais qualidade e valor agregado. Os 35 criadores que fundaram a Aliança Mercadológica Novilho Precoce, hoje Cooperativa Aliança, foram pioneiros num sistema próprio de rastreabilidade do rebanho e de certificação da carne Angus. Atualmente já são 135 cooperados que abatem 25 mil bovinos por ano. Em janeiro inauguraram um frigorífico próprio em que foram investidos R$ 83 milhões de reais.

Desde os primeiros anos, o modelo guarapuavano fez escola. Inspirados pela iniciativa paranaense, pecuaristas gaúchos fundaram em 2002 a Aliança Mercadológica da Carne, que em 2006 passou a ser chamar Associação dos Produtores Rurais dos Campos de Cima da Serra (Aproccima). A união trouxe escala à produção e os associados passaram a negociar melhor as carnes nobres com os frigoríficos e o varejo. Carlos Roberto Simm, um dos fundadores, diz que a carne das raças europeias de gado segue o benchmark do vinho. “São três nichos de mercado, com diferenciação de preço. Assim como existem os vinhos de uva comum, depois os de varietais e de altíssima qualidade, nossa carne segue a mesma lógica, e oferecemos os selos gourmet e prestigie, que é o top do nicho do mercado”, afirma Simm, que tem seu próprio açougue em Caxias do Sul, onde oferece mais de 90 cortes de carne bovina.

Pesquisa genética aponta animais que vão produzir carne mais macia

As carnes da Approcima têm o selo de Boas Práticas Agropecuárias (BPA) da Embrapa. É possível saber a identificação de cada animal, sexo, raça, tipo de terminação, idade, peso da carcaça e percentual de gordura. Para garantir as características valorizadas pelo consumidor, como maciez e marmoreio, é feita nos Estados Unidos a análise do genoma das matrizes. “Sob o ponto de vista genético, existem quatro pares de genes que conferem maciez à carne. E há animais que não tem nenhum par. Estamos fazendo essa análise e identificando esses animais que possuem todos os pares, o que representa uma grande evolução no quesito qualidade. E daí a razão do selo prestigie, vamos colocar isso como precificação”, diz o criador.

Carlos Roberto Simm antevê que a pecuária brasileira seguirá dois caminhos paralelos. Do Centro-Oeste para cima, onde é mais quente, as raças zebuínas rústicas produzindo animais que atendem o consumo em massa, e mais para o Sul, no frio, a produção de carne de raças europeias de alto valor agregado. O que não muda, independentemente da localização geográfica, é a pressão pela profissionalização. “Estamos num processo acelerado de mudança de paradigma. É um divisor de águas. Ou você é eficiente, ou você está fora”, diz.

Para Pedreira, da Liga do Araguaia, essa é a pecuária do futuro, que estará estabelecida daqui a cinco ou dez anos. “Há 5 anos, quando eu falava de carbono, o pessoal da Liga do Araguaia ria. Não sei o que você está falando, esse negócio de mudança climática, aquecimento global, achavam que era uma bobagem, uma coisa de governo. Hoje você abre o jornal, está lá o caos no mundo todo”.

Associados, os criadores diminuem os custos para monetizar ativos ambientais

Criadores da Liga do Araguaia, no Brasil Central, começam a receber mais por pecuária mais sustentável | Foto: Divulgação / Liga do Araguaia

Há grandes grupos empresariais que estão indo na mesma direção, mas iniciativas como a da Liga do Araguaia têm um impacto diferente. “Uma fazenda só, por maior que fosse, não poderia dar esse caráter de fomento. A Liga tem um alcance muito mais amplo, tem uma dimensão social, impacta as comunidades, a região onde a gente está atuando”. Monetizar ativos ambientais envolve, também, custos elevados de implantação, por causa das metodologias e certificações exigidas. “É um caminho longo e caro. Se não tiver volume de ativo grande, você não consegue custear esse custo de transação. Você tem que trabalhar com número de fazendas grandes. A própria liga, com 60 fazendas, precisa aumentar o número de fazendas engajadas pra gente ter mais carbono, ter mais ativos para oferecer, e conseguir diminuir o custo de transação”, enfatiza Pedreira.

A realidade é que, em pouco tempo, ficará quase impossível se manter na pecuária com uma mentalidade “extrativista”. A maior empresa de carnes do mundo, a brasileira JBS, avisou que a partir de 2025 só comprará animais com rastreabilidade, ou seja, com “certidão de nascimento”. “A JBS abate por dia 35 mil cabeças no Brasil e 150 mil cabeças no mundo. Se ela avança nessa agenda, como é que o pecuarista diz ‘eu não vou fazer!’ Se não fizer vai ficar fora, não vai ter acesso ao mercado”, enfatiza o gerente da Liga do Araguaia.

Nesse jogo de mercado, os pecuaristas que fizerem a lição de casa vão ter uma carta na manga, lá na frente. “Vai chegar a hora em que poderemos dizer: Querem continuar comprando o meu boi? Tem que pagar um prêmio, porque o meu boi tem pegada de carbono, boas práticas, certificação, etc. E a JBS vai dizer lá fora, na Holanda, na Alemanha ou na China: Querem comprar? Custa mais caro. Tem que pagar um prêmio por esses atributos”, aposta Pedreira.

Líder em produção e exportação de carne

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que o Brasil, além de ser o maior exportador de carne vermelha, tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com 217 milhões de cabeças. Do início dos anos 1960 até hoje, a produção no País se multiplicou por sete. De 1,4 milhão de toneladas em 1961, para as atuais 9,3 milhões (em 2021) e previsão de chegar a 11,2 milhões em 2025. Cerca de 80% é para atender ao mercado interno. Nas exportações, as 159 mil toneladas por ano, embarcadas em 1997, saltaram para 1,84 milhão de toneladas, em 2021.

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