GTPS na mídia
03.11.2021

Novas metas para emissão de metano aumentam pressão sobre o Brasil

O metano passou de coadjuvante a protagonista na discussão sobre mudanças climáticas e deve ser motivo de debates na COP26, conferência da ONU sobre o tema que acontece em Glasgow, na Escócia, até 12 de novembro.

A importância do gás nas negociações entre os países adiciona pressão extra sobre a política ambiental e a agroindústria do Brasil, que é o quinto maior emissor de metano no mundo.

Embora seja o segundo maior causador do efeito estufa em volume de emissões, atrás do dióxido de carbono, o gás é capaz de aquecer a atmosfera 28 vezes mais do que o mesmo volume de CO2 .

Sua eliminação, no entanto, é mais rápida: a meia-vida do metano —tempo para que metade do volume emitido se decomponha na atmosfera— é de cerca de 12 anos. Já o dióxido de carbono e o óxido nitroso, outros dois dos principais gases estufa, levam de 100 a 10 mil anos para deixarem de aquecer o planeta.

Por isso, o poluente tornou-se o gás da vez. Sua redução é uma das estratégias mais rápidas para tentar manter o planeta dentro da meta de aquecimento de 1,5°C, estabelecida no Acordo de Paris, firmado durante a COP21, em 2015.

Em setembro deste ano, o presidente americano Joe Biden anunciou um novo compromisso entre Estados Unidos e União Europeia para reduzir as emissões de metano em 30% até 2030.

A reunião virtual reuniu líderes de países como Argentina, Japão e Reino Unido. Até agora, 32 nações aderiram ao acordo —convidado, o Brasil não participou. Questionados sobre o tema, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Meio Ambiente não se pronunciaram.

A redução nos níveis do gás também é o primeiro dos seis pontos do plano de ação elaborado pela Comissão de Transições de Energia, coalizão global que reúne líderes do setor energético.

As metas do grupo são ainda mais ambiciosas e preveem diminuição de emissões em até 60% em setores como o de combustíveis fósseis.

As metas altas partem da constatação de que o planeta se aproxima de um “ponto de não retorno” no clima, conforme definiu Biden no comunicado em que anunciou novos esforços contra as emissões do gás.

“As grandes transformações dos sistemas econômicos de todo o planeta têm que acontecer nesta década. Reduzir o metano é o meio mais rápido de diminuir o ritmo com que a Terra está aquecendo’’, diz o climatologista Carlos Nobre.

Antes chamado de gás dos pântanos, o metano é um composto inflamável produzido em ambientes pobres em oxigênio, por meio da fermentação realizada por bactérias. É o principal componente do gás natural e aparece também, em menor proporção, em processos como o desmatamento.

No Brasil, a agropecuária foi responsável por 73% do gás lançado entre 1990 e 2019, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa —iniciativa da ONG Observatório do Clima.

O gás emitido nos pastos é o principal responsável pela cifra. A substância é lançada no ar durante a digestão de ruminantes, como gado bovino e caprino, principalmente na forma de arroto. Também é expelida por meio de flatulências e a partir das fezes.

Em 2020, o Brasil registrou o maior rebanho bovino do mundo, com 218 milhões de cabeças de gado, segundo o IBGE. Quanto maior o número desses animais, mais metano é produzido.

A pressão para que o país crie novas metas para suas emissões pode afetar diretamente a indústria agropecuária brasileira e tornar-se mais uma fonte de desconfiança sobre a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), em um contexto de relações internacionais já estremecidas pelos índices de desmatamento recordes da Amazônia neste ano.

Novas restrições sobre o metano podem ter implicações importantes. O Brasil tem que ir à mesa de discussões com responsabilidade’’, diz Paulo Artaxo, físico da USP (Universidade de São Paulo) e membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU).

Para o especialista, novas técnicas para mitigação das emissões não promovem uma redução significativa do gás na atmosfera. “A solução é comer menos carne’’, afirma.

A recomendação de mudanças na dieta da população também surgiu durante a elaboração do sexto relatório do IPCC, documento base para as discussões na COP26. Nos debates, o Brasil se opôs às recomendações para diminuir o consumo de carne e rebateu críticas sobre a política ambiental da atual gestão.

Gerente-executiva do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável, organização não governamental que reúne produtores rurais e gigantes do setor como JBS e Santander, Luiza Bruscato afirma que a pecuária brasileira está alinhada com as melhores práticas da ciência.

JBS, Marfrig e Minerva Foods, os três maiores frigoríficos do país e associados à entidade, anunciaram neste ano o compromisso de zerar emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035.

As três empresas, além da BR Foods, figuraram na lista de 20 frigoríficos do mundo que mais emitiram gases de efeito estufa em 2016, em relatório da fundação alemã Heinrich Boll Stiftung divulgado em setembro.

Bruscato diz que as empresas de agronegócio têm buscado agora maneiras de uniformizar os dados de emissões, desenhar indicadores e harmonizar as metas do setor, em conjunto. “A pecuária do Brasil tem potencial para ser a mais sustentável do mundo.”

Parte dos pesquisadores da área também defende que é possível adotar ações sustentáveis para reduzir o metano emitido pela pecuária brasileira. Entre as alternativas citadas estão a recuperação de pastagens que estão degradadas e a adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, que otimiza o uso da terra e pode compensar as emissões com o plantio de árvores, por exemplo.

Outras soluções olham para a pegada climática dos animais e buscam reduzi-la com mudanças na dieta deles —inclusão de legumes, óleos e algas marinhas—, uso de probióticos, seleção genética e até vacinas, que seriam capazes de diminuir a quantidade de gás formado na digestão.

Para Robert Boddey, pesquisador da Embrapa, o maior desafio do Brasil na área é melhorar a produtividade por hectare da pecuária.

“O país não é o vilão [das mudanças climáticas]. Mas, no geral, tem que melhorar o manejo do gado e a produtividade. Ainda se produz muito metano para pouca carne.”

*Artigo publicado originalmente no portal Folha de São Paulo.

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Flávia Feris

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