Clipping
07.06.2021

Intensificação do solo pode aumentar a produção e favorecer o clima

Esta é a terceira de uma série de reportagens que o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), no âmbito do projeto CONSERV, publica para apresentar e estimular o debate sobre boas práticas no campo.

Reduzindo a pressão pela abertura de novas áreas para a produção agropecuária, a natureza mantém os serviços ambientais essenciais à agropecuária, como produção de chuva, ao mesmo tempo em que o produtor aumenta sua rentabilidade.

A agropecuária (áreas de pasto e áreas agrícolas) ocupa 30% da superfície terrestre brasileira, ou 231 milhões de hectares, segundo o MapBiomas. Com investimento e tecnologia, é suficiente para o Brasil aumentar sua produção, respondendo assim às necessidades presentes e futuras do mercado global de commodities agropecuárias e das exigências por preservação ambiental.

Existem técnicas de intensificação do uso da terra que ajudam a aumentar a produção, evitando a abertura de novas áreas. Um dos mais difundidos atualmente é a estratégia de safra e safrinha.

O plantio da safra é realizado de acordo com a chegada da chuva, período em que as condições climáticas, temperatura, luminosidade e umidade são mais adequadas para o desenvolvimento das culturas sem irrigação. É quando o produtor investe no plantio de mais interesse.

Já a safrinha acontece logo após a safra, para aproveitar o restante de chuva. Seu volume produtivo, se comparado à safra, é menor em virtude das condições climáticas. Os dois sistemas ajudam a programar o período de preparação do solo para a plantação e proporcionam um melhor aproveitamento da mesma área, que será utilizada para diferentes culturas.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Eduardo Assad, quando se trabalha só com a lavoura de soja, por exemplo, utiliza-se apenas 42% do tempo útil da propriedade. Em contraponto, quando é feito o plantio da safra e da safrinha, o uso do tempo útil sobe para 80%. “Se no primeiro caso eu teria 3.500 quilos de grão por hectare, no segundo temos em média 8 mil kg de grão por hectare. Ou seja, um impacto econômico enorme”, exemplifica Assad.

A pesquisadora do IPAM Ludmilla Rattis explica que, ao manter o solo ocupado por mais tempo, ele fica menos exposto, evitando a perda de água e de matéria orgânica, como o carbono, o que favorece o plantio. “Além disso, os níveis de evapotranspiração [quando a água sai do sistema terrestre e volta para a atmosfera] também são mantidos por um período maior, beneficiando o ciclo da água.”

Um artigo publicado em 2016 na revista Global Change Biology demonstrou que a evapotranspiração dos sistemas de safra e safrinha, em algumas áreas do Cerrado, é quase equivalente a uma área de vegetação natural. “Isso é importante, pois, quando falamos de manter o ciclo da água e de assimilar carbono, são vantagens tanto para a agricultura quanto para o meio ambiente e para o clima”, reforça Rattis.

Menos dano, mais resistência

Outro método que beneficia o solo é o sistema de plantio direto (SPD), no qual se aproveita a matéria orgânica do resto da última safra e planta-se na mesma área, sem necessidade de mexer – arar e gradear – a terra, que já estará enriquecida por conta da decomposição da matéria orgânica. Dessa forma, é possível economizar com tratos culturais (preparo do solo, adubação, aplicação de defensivos, dentre outros), evitando revolver o terreno, reduzindo a compactação do solo e minimizando os danos com erosão.

Assad explica que, ao manter o solo coberto, o plantio direto proporciona um ganho de pelo menos 10,15% de umidade da terra, fazendo com que as plantas consigam resistir mais ao veranico – dias de muito sol e calor que ocorrem no período chuvoso. Outro ponto importante é o aumento na matéria orgânica, garantindo que a próxima safra tenha um solo melhor que o anterior. “Para isso, basta o produtor mudar o seu manejo”, explica o pesquisador.

Rattis destaca que qualquer prática agrícola que beneficie a quantidade de matéria orgânica na terra ou que evite a perda de água favorece o que está sendo cultivado naquele momento e posteriormente. “Esse é um princípio de agricultura sustentável. Não há sustentabilidade se você tira mais do solo do que você devolve e se aquele cultivo produz seca ao invés de produzir água.”

Gado que protege o solo

Já no sistema de integração lavoura-pecuária (ILP) e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), além de safra e de safrinha, incorpora-se o gado e, no caso do ILPF, adiciona-se as árvores.

Nesses sistemas, o pasto que irá alimentar o rebanho também protege o solo, mantendo o carbono e sua umidade. “Isso faz com que as plantas resistam mais à redução de chuvas, que estão acontecendo principalmente por conta dos problemas climáticos que o mundo está passando”, diz Assad.

No Brasil, são 11,5 milhões de hectares com sistemas integrados (ILP e ILPF), dos quais aproximadamente 2 milhões estão no Mato Grosso do Sul e 1,5 milhão de hectares estão em Mato Grosso.

Os dois sistemas proporcionam um melhor aproveitamento da área, conforme salienta Assad. “Em termos de rentabilidade isso é muito bom, além de melhorar a qualidade do solo e aumentar o teor de água e carbono retido nele, reduzindo a emissão de gases do efeito estufa”, reforça. Ele ressalta ainda que, no caso do ILPF, além de as árvores proporcionarem sombreamento para os animais, contribuindo para o bem-estar e para o ganho de peso do rebanho, elas conseguem fixar ainda mais carbono em suas estruturas.

É dessa forma que as árvores auxiliam no equilíbrio do clima, quando retira carbono da atmosfera por meio da fotossíntese e consome energia para transpirar a água. “Uma árvore média, de 20 metros de altura, por exemplo, joga 500 litros de água para a atmosfera todos os dias. Sua potência de resfriamento é de 70 kWh para cada 100 litros de água transpirada, o equivalente à potência de dois aparelhos de ar condicionado residenciais”, explica Rattis.

Quebrando paradigmas

O proprietário rural e engenheiro agrônomo Fernando Paim adota as técnicas de safra, safrinha e plantio direto em sua propriedade. “Geralmente a soja é plantada nas primeiras chuvas, em setembro; é colhida em dezembro, e, em seguida, planta-se o algodão. Isso é feito majoritariamente por meio do plantio direto.”

Paim é um dos produtores contratados pelo projeto CONSERV, lançado em outubro de 2020 pelo IPAM, em parceria com o Woodwell Climate Research Institute e com o EDF (Environmental Defense Fund). O mecanismo privado e de adesão voluntária remunera financeiramente produtores rurais da Amazônia Legal que se comprometem a conservar o excedente de vegetação nativa em suas propriedades que, por lei, poderia ser suprimida.

Mesmo com uma área produtiva arrendada, Paim é entusiasta das boas práticas no campo e entende a importância de conciliar produção com conservação. “Ao mesmo tempo em que temos o direito de utilizar nossa propriedade, precisamos também conservá-la para continuar usufruindo dela.”

De acordo com Assad, para que essas técnicas sejam mais adotadas no país, é importante que as tecnologias já existentes cheguem até o produtor. Para isso, é necessário quebrar o paradigma de que árvore deitada vale mais que árvore em pé. “Se é rentável e auxilia o clima, temos de sair desse padrão antigo e modernizar a atividade”, defende.

Comunicação GTPS

Paulo Zappa

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