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18.02.22

Gestão de pessoas na fazenda: por que a Conforto, com 130 mil bois, montou um RH

O conceito de bem estar-animal, baseado na ciência, dita que a relação humano-animal é uma chave complexa na lida do campo, como prega o Grupo Etco (Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal), da Universidade Estadual Paulista, uma das mais importantes frentes de estudo no país. Mas não é uma chave impossível de ser virada. Na Fazenda Conforto, de 12.000 hectares, em Nova Crixás (GO), uma mudança em curso vem ajustando as engrenagens de bem estar e agora a equipe de 150 funcionários, que toca um modelo exemplar de gado confinado, dispõe de um departamento de RH (recursos humanos) estruturado, o que é uma raridade nas cerca de 5 milhões de propriedades rurais do país. “Para nós, não é um simples projeto, é uma realidade que está mudando a cultura da fazenda”, diz Sergio Pellizzer, vice-presidente da Fazenda Conforto. A fazenda pertence ao empresário e ex-piloto de stock car, Alexandre Funari Negrão, ou Xandy Negrão, que já foi dono do laboratório farmacêutico Medley, vendido para a francesa Sanofi em 2009.

A Conforto fica nas margens da rodovia GO-164, chamada “Estrada dos Bois”, por um motivo óbvio: a região tem DNA boiadeiro. A estrada margeia, já do lado de dentro, o vale do Rio Araguaia que divide Goiás e Mato Grosso. Ela é quase uma linha reta do sul do estado até o norte, na divisa com o Tocantins, próximo de onde começa a Ilha do Bananal. O vale do rio Araguaia é uma das regiões mais espetaculares do país.

A Estrada dos Bois é coalhada de fazendas que também são referência para a pecuária, como a Barreiro Grande, de Adir do Carmo Leonel, em melhoramento genético nelore; ou a Nova Piratininga, que pertence a Marcelo Limírio Gonçalves e que é a maior fazenda de pecuária do país em área contínua, a chamada “fazenda de uma porteira só”. No caso da Conforto, ela é referência em tecnologias de engorda intensiva de gado e de produção de insumos, como o cultivo de milho sob pivô.

A Conforto foi a primeira fazenda no país a usar na dieta dos animais o milho floculado há quase duas décadas, tornando o grão parecido com um corn flakes e, por isso, melhor digerido. A técnica, utilizada nos Estados Unidos, até hoje é encontrada em pouquíssimas propriedades rurais no país, não mais que três ou quatro. Outro detalhe que chama a atenção é que a fazenda também sempre foi referência em formação de mão de obra: trabalhar na Conforto, na região, é sinônimo de qualificação.

Um RH para chamar de nosso

Mas, então, qual o real motivo que levou Pellizzer a estruturar esse departamento? A resposta está um passo à frente do que se entende por trabalho no campo. O RH não foi montado como um puxadinho, mas como estratégia dorsal de sua gestão. E por uma razão muito simples: a Conforto, mais do que criar bois, é uma fábrica de carne a céu aberto. Do confinamento, com capacidade estática de 62 mil bovinos, devem sair neste ano, em mais de dois giros, 130 mil animais entre nelore e anelorados destinados ao abate. Em 2021 foram 120 mil bovinos entregues aos frigoríficos. Para alimentar esse gado todo, a fazenda precisa funcionar como um relógio suíço para produzir 165 mil toneladas de matéria seca (no jargão técnico é a quantidade total de alimentos, sem contar a sua umidade).

Como um nicho gestor de pessoas, a virada do RH começou há dois anos. Em 2021, os investimentos nesse setor foram de cerca de R$ 13 milhões, sem contar a distribuição de bônus à equipe, no valor de R$ 2,5 milhões. “Para este ano já aprovamos um investimento de R$ 12 milhões”, informa Pellizzer. Desse total, R$ 1,5 milhão será somente para cursos e treinamento de liderança. As mudanças têm o consentimento de Negrão, que aos 68 anos de idade se mantém no comando dos negócios, mas que está deixando nas mãos dos herdeiros as operações. “Ele vê os resultados e é uma pessoa que consegue delegar também. E a partir do momento que ele adquire confiança, fica fácil trabalhar”, afirma Pellizzer.

A virada para o RH boiadeiro

Formado em comunicação pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), Pellizzer assumiu o atual cargo na Conforto há dois anos. Ele já foi curador da Toronto Foundation, uma fundação comunitária filantrópica, por oito anos, e é sócio da Criah, uma consultoria de marcas. “No ano de 2020 fui para dentro da fazenda para entender todos os processos, as metodologias de funcionamento, e não só o negócio como um todo em números”, diz ele. “E nessa identificação senti falta de um apoio maior em desenvolvimento humano, principalmente de gestão de pessoas. Dos nossos próprios líderes, passando pelos gerentes”.

Para colocar o projeto de RH na agenda, Pellizzer foi para o mercado em busca de um gestor, porque a constituição formal de um RH não poderia ficar apenas no nome. A busca durou quatro meses, até encontrar não um gestor, mas a gestora Gisele Caleffi, que em janeiro de 2021 assumiu o cargo de gerente de gente e gestão. “Convidei a Gisele para passar três dias na fazenda e nesses dias identifiquei que ela era essa ‘pessoa do mato’ que a gente estava procurando”, fala Pellizer, em tom de brincadeira. “Mato mesmo, de vacinar gado, de montar em burro, ir para o pasto”, completa Caleffi.

Ela conta que é psicóloga e começou a carreira no agro, ainda jovem, trabalhando na Seara, hoje controlada pelo Grupo JBS, em uma unidade de abate de aves. Depois, foi para a Minerva Foods, em Barretos (SP), como uma das gerentes de RH Brasil Mercosul. “Saí para outras experiências, mas sentia falta dessa coisa que é o agro. Aí deu match aqui com a Conforto”, afirma. Mas a implantação do que hoje é o “RH boiadeiro” foi um caminho também de aprendizado e de alinhamento.

Cláudio Braga, diretor de agronegócio, está na Conforto há quase duas décadas. A fazenda foi comprada por Negrão em 1996. É Braga que conhece cada milímetro da área e sua história, além de ser uma das lideranças da pecuária no Vale do Araguaia. “Quando eu cheguei, claro, teve um choque. Na visita, o Claudio falou ‘essa moça vai pegar a malinha e nunca mais vai pisar aqui’. Aí deu um mês e pensei ‘estou aqui, então vou ficar’”, relembra Caleffi. Para ela, a adesão de Braga ao projeto de RH foi o que deu consistência para que toda a equipe entrasse no jogo.

“Então, quando falamos da nossa trajetória aqui, estamos falando de profissionalização. A gente é super tecnológico e bom em engordar boi. Mas como fizemos isso nos últimos 25 anos? E como queremos fazer nos próximos 25? Porque essa galera que está vindo para o mercado, agora, não vai querer engordar boi como era lá atrás”, afirma Caleffi.

Passo a passo do RH boiadeiro

A estruturação do RH começou por uma pesquisa de clima, não para ver se ia chover, mas da percepção do universo Conforto e seu entorno. Foi daí, de uma série de reuniões, que cada funcionário ajudou a construir os valores da Conforto e também o seu propósito. Quando terminou o ciclo havia cinco determinações coletivas: integridade é o nosso alicerce, valorizamos nossa gente, domínio do negócio, superamos todos os limites e orgulho em ser Conforto.

“Quando a gente fechou os cinco propósitos eu falei para a Gisele de colocarmos mais alguns itens e ela disse que não podia, senão as pessoas não estarão inseridas nesse contexto. Ela tinha razão, porque a construção disso não foi top-dow, foi botton-up”, afirma Pellizzer. Hoje, as reuniões de equipes, para qualquer outro assunto, começam com trabalhar alguns dos conceitos listados pela equipe. “Reconstruímos os valores junto com os peões, junto com as lideranças. Quais os comportamentos esperados e as metas. Hoje, os vaqueiros sabem quais são as metas deles. É uma cultura muito diferente do que a gente vê no agro mais raiz, de certa forma” afirma Caleffi.

Na prática, a Conforto foi dividida em 14 “departamentos” integrados e com suas próprias metas, como recria, operação de confinamento, serviços, financeiro, gente, gestão, entre outros. São times dedicados às diversas funções, com metas qualitativas e quantitativas e, mais, eles praticam a autoavaliação e domínio do negócio. “Então, o time de caldeira tem a sua meta, os vaqueiros têm outras, tudo com gestões acertadas. Antes da pesquisa de clima, as pessoas não sabiam quem era o líder”, diz.

A reorganização vem trazendo dividendos à equipe. No caso, toda a operação ganha até três salários de bônus, as lideranças ganham até quatro, a gerência cinco e assim por diante. Sem contar a diretoria, os salários na Conforto podem chegar a R$ 30 mil. Na pecuária, um peão pode começar com R$ 3.200, valor acima da média da região. “E a gente agrega como benefício extra o vale alimentação e o vale gasolina, que não tínhamos”, diz Pellizzer. A fazenda, que fica a uns 15 minutos da cidade, conta ainda com 15 funcionários alojados e 25 casas para famílias.

Com a estruturação de RH, a manutenção dos colaboradores vem se sedimentando. “A tendência é sempre o ganho de produtividade, não simplesmente a eliminação de funcionários. Hoje, no país há tecnologia em soja para colher 250 sacas por hectare. Essa inovação tecnológica vem relacionada a ganho de produtividade, não em eliminação de pessoas”, diz Pellizzer.

Caleffi afirma que de 2019 para 2020 as demissões, ou pedidos de desligamento, desabaram. “Em 2021 tivemos dois ou três pedidos de demissão e nem foram na pecuária”, diz. Ela conta que para isso foi criado um sistema de feedbacks, advertências e conversas que brecaram uma prática comum: demissões por qualquer coisa e alto número de pedidos de demissão. A ordem é investir no capital humano. “As pessoas que operavam uma máquina antiga, que eram tratoristas, fizeram cursos de GPS, operação de máquina, etc”, afirma. “É desenvolvimento de gente, que poderá ganhar mais e trazer mais desenvolvimento para a cidade.”

Há também, em curso, outros pilares sociais sendo construídos: campanhas de saúde, como o Novembro Azul, que pagou 100% dos exames de próstata para os colaboradores; o dezembro vermelho, de prevenção das DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), com compra de preservativos, e a de Câncer de Mama, para as mulheres. “Cinco mulheres deram alterações no toque de nódulo da mama e a gente foi atrás. Estamos falando de saúde, educação, treinamento, de coisas que permeiam retenção e desenvolvimento”, diz Caleffi. O próximo passo é mapear a educação formal da comunidade no entorno da Conforto e investir. “Gisele é uma pessoa que tem motivação, que se joga no campo”, diz Pellizzer, sobre os projetos de RH em andamento.

Um deles é exatamente aumentar o número de mulheres funcionárias da fazenda. Atualmente são apenas 14 mulheres, um número muito pequeno. “Um dos compromissos é a pauta da diversidade dentro do ESG”, afirma Caleffi. Mas as mudanças, ainda que sutis, já começaram. No ano passado, por exemplo, pela primeira vez foi contratada uma zootecnista para o setor de trato animal, que era uma área dirigida por homem, e uma engenheira de produção para ser líder da área de ração. Ana Claudia Mendes, 25 anos e médica veterinária, foi contratada em 2019, assim que terminou a faculdade.

Ela conta em um vídeo publicado no Instagram da Conforto no Dia Mundial da Mulher Rural, data que a Forbes também publicou a Lista das 100 Mulheres Poderosas do Agro, que desde pequena soube que queria trabalhar com animais, como bois e cavalos, e que não tem encontrado dificuldades com a equipe quase toda formada por homens na Conforto. “É uma frase clichê, mas lugar de mulher é onde ela quiser”, afirma Mendes. “Tive muita dificuldade financeira para me formar, mas cada dificuldade era uma motivação a mais para me formar e viver o que vivo hoje.”

Aliás, vídeos como esse, que também estão em um canal do youtube, passaram a fazer parte da rotina das equipes da Conforto. Além dos depoimentos, eles são usados para mostrar rotinas e histórias que falam de integridade, relação com os parceiros, fornecedores, cuidados na lida. E mais: as pessoas que vão para a frente das câmaras são escolhidas pelos próprios funcionários como referência naquilo que vão falar. Neste ano, mais um projeto deve entrar na agenda e vai se chamar Programa Ideia Premiada. “Claro que há métricas para mensurar os retornos, mas a gente só pensa em devolver para a comunidade”, diz Caleffi. “É uma visão muito mais de desenvolvimento social humano, e logicamente acaba sendo econômico, do que um RH para distração dessa mão de obra.

*Artigo publicado originalmente no portal Forbes.

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