GTPS na mídia
23.11.2021

Falta de assistência técnica é gargalo para atingir metas de metano e carbono

Assumir compromissos sobre redução de emissão dos gases de efeito estufa foi parte da agenda de mais de 100 países, entre eles o Brasil, durante a Conferência do Clima (COP26), encerrada na segunda quinzena de novembro. No entanto, atingir a meta parece estar distante da realidade de muitos produtores brasileiros que dependem de assistência técnica pública.

O pacto do metano assinado em Glasgow prevê uma meta global de redução de 30% nas emissões de metano. O Brasil não precisa se comprometer a chegar a este nível sozinho. Mas com a pecuária pujante, que já possui tecnologias avançadas de manejuo sustentável, como integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) e recuperação de pastagens, o País é um potencial exemplo de mitigador de emissões. Mas isso precisa ser mais disseminado.

É o que afirma Antônio Marchiori, presidente da Associação Paulista de Assistência e Extensão Rural (Apaer). Para ele, o que deve mudar nas práticas agronômicas é a lógica de funcionamento: pensar menos em produtos e mais em processos. E levar conhecimento público, gratuito e de qualidade para os produtores rurais é uma tarefa que está atrasada.

Ele diz que a transferência de tecnologia para o campo através das entidades públicas, como as casas de agricultura, está à míngua, e isso contradiz a responsabilidade depositada sobre os produtores para diminuir a pegada de carbono e metano. “No modelo de governo federal e estadual, o orçamento foi enxugando tanto que você não tem gente para fazer essa extensão rural”, contesta.

“Um dos compromissos assinados na COP mostra a importância do manejo de solo, implementação de sistemas agroflorestais… Mas para adotar isso, é preciso do profissional da extensão rural”, defende Marchiori.

Além do corte nos orçamentos públicos, o presidente da Apaer adiciona um elemento: a indústria agroquímica. “Você tem atores que têm interesse em manter o sistema como ele está, porque ganham com isso. É essa agricultura baseada em uso de insumos, químicos e biológicos”, diz. A mudança, que ele chamada de agricultura baseada em processos, significa, dar preferência a um manejo tão sustentável em que seria possível até não precisar desses produtor.

Parece utopia, mas ele diz que é possível. Cita modelos de agricultura regenerativa e agrofloresta como exemplos práticos, baseados em processos como composição da paisagem, consórcio de cultivos e cuidado primoroso com o solo. Novamente, a assistência e extensão rural se fazem necessárias para levar as técnicas a uma ampla gama de produtores. Só que não é assim que acontece atualmente, lamenta Marchiori.

Enquanto colocam fogo na Amazônia, a agrofloresta poderia virar realidade, mas não há política de Estado para isso. A agricultura digital fica no mundo digital, mas a realidade é outra

Antônio Marchiori, presidente da APAER

A visão da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) segue a mesma linha. Em nota, a entidade que representa agricultores familiares avalia que “falar de acesso às tecnologias digitais para aperfeiçoar esse serviço [de Ater] parece algo de outro mundo, e na pandemia isso ficou bem claro”.

Se o Brasil quiser contribuir com o acordo assinado na COP26, a entidade defende que “o governo federal precisa disponibilizar recursos e assistência técnica para que as adaptações sejam feitas, pois até o momento não se tem notícias das ações que serão tomadas nesse sentido”.

Para que a adoção das tecnologias seja factível, a Contag ressalta a importância de considerar a sabedoria dos povos. “É preciso investir na formação de técnicos que trabalhem as especificidades dos povos do campo, contemplando técnicas específicas, como estratégia para subsidiar os processos de sustentabilidade na produção agropecuária. Se assim não for, esse processo está comprometido e qualquer acordo firmado tem tudo para não dar certo”, diz a entidade ao se referir ao acordo de metano.

Do ponto de vista de Sergio Schuler, presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável (GTPS), o processo a ser mudado está na fermentação entérica do boi. Ou seja, fazê-lo arrotar menos. Modelos de recuperação de pastagens e ILPF precisam ser levado adiante por um corpo técnico.

“Não basta botar a culpa no produtor e não haver ações para possibilitar que ele tenha acesso a mecanismos para a melhoria da eficiência do sistema de produção”, diz. “Os técnicos de campo precisam ser conscientizados e capacitados nessas novas tecnologias para que saibam levar informação consistente aos produtores rurais.”

O que diz o governo

A aposta do governo federal para acelerar a disseminação de tecnologias por meio de assistência técnica e extensão rural passa pelo Plano ABC+. Existente desde 2010 e renovado até 2030, o plano de agricultura de baixo carbono do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) foi um dos carros-chefe do Brasil na COP26.

De 2010 a 2020, quase 27 milhões de hectares de pastagem foram recuperados, segundo o Mapa. Mas Mariane Crespolini, diretora do Departamento de Produção Sustentável e Irrigação da pasta reconhece que “o Brasil tem muito mais a recuperar e intensificar”, por isso a Ater deve receber uma atenção especial nos próximos nove anos.

O ABC+, segundo ela, conta com uma Estratégia de Assistência Técnica e Extensão Rural, Capacitação e Transferência de Tecnologia por meio de três ações principais: fortalecer a Ater para apoiar a adoção e manutenção dos Sistemas Produtivos do ABC (SPSABC); apoiar a implantação, expansão e sistematização de Unidades de Referência Tecnológica (URT) para difusão dos sistemas produtivos; e ainda difundir estes sistemas mais sustentáveis entre técnicos, extensionistas, projetistas, agentes/analistas financeiros, profissionais liberais, empresas e produtores rurais, em todo o território nacional.

“Estas ações, assim como as demais ações do ABC+ atendem todos os segmentos, tipos e tamanhos de propriedade, sem exceção, incluindo-se a agricultura familiar e não familiar, povos e comunidades tradicionais”, esclarece Mariane, que ainda cita projetos de cooperação técnica internacional. “Nesses projetos os públicos-alvo que recebem a Assistência Técnica e Gerencial são pequenos e médios produtores”, disse.

*Artigo publicado originalmente no portal Globo Rural.

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