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06.05.2021

Captura de carbono pode render mais do que produção agrícola

Um novo desafio se coloca para o produtor brasileiro. Seguir uma agenda irreversível, que coloca um fim na separação das dimensões produtivas e ambientais em suas propriedades.

Não existe mais uma dimensão produtiva desconectada da ambiental. A fazenda dever ser um todo e incorporar os diferentes ativos que a compõem, diz José Carlos Pedreira de Freitas, coordenador executivo do Instituto Agroambiental Araguaia, lançado na semana passada.

A dimensão única vai conectar os ativos da propriedade e garantir uma sinergia entre as diversas áreas, que vai da polinização das lavouras provinda da floresta à sustentabilidade maior das pastagens.

Jorge Caldeira, escritor e jornalista, diz que a sustentabilidade traz um novo horizonte para o país, e que não se pode perder essa chance. Foi-se o tempo em que a conservação da natureza representava apenas uma ocupação de espaço.

Caldeira diz que, ao contrário, a natureza ganha cada vez mais valor e pode atingir, no caso do Brasil, receitas correspondentes a três vezes as exportações brasileiras do agronegócio.

A partir de 2019, os governos começaram a ver a questão ambiental como uma meta de planejamento. E, nos últimos dois anos, nove das dez maiores economias do mundo colocaram a meta de carbono zero como estratégia de governo.

A economia de carbono neutro não é apenas conservação, mas uma passagem da natureza para uma fonte de receitas, diz o escritor. O Brasil pode assumir a dianteira dessa nova economia.

Os ativos ambientais vão representar uma nova descoberta do ouro, como a ocorrida no século 18, segundo ele. Para isso, no entanto, serão necessárias métricas para a apuração desses atributos na exploração dos ativos sustentáveis.

A economia de carbono neutro tem algo a mais do que a economia sustentável. Ela vai gerar uma renda para quem captura carbono.

O maior instrumento de captura de carbono no planeta é o Brasil. Ele captura mais carbono do que as dez nações seguintes nessa lista. Por isso, é necessária uma transformação da captura em atividade econômica. A natureza deve ser uma fonte de receita por meio de prestação de serviço.

Quando isso ocorrer, o Brasil vai obter receitas não só pela produção como pela captura de carbono.

Caldeira diz que os valores financeiros que circundam essa nova economia são enormes. Em 2019, pelo menos US$ 20 trilhões de dólares estavam voltados para investimentos privados em ESG (meio ambiente, social e governança).

Atualmente, já são US$ 70 trilhões no mundo destinados a investimentos voltados para equilíbrio ambiental, social e de governança. Esse montante significa dois terços de todo o capital voltado para investimentos.

Os grandes investidores deixaram de avaliar apenas o lado financeiro, e passaram a considerar o ciclo produtivo total, segundo o escritor. Os chamados títulos verdes (green bonds) representam US$ 1 trilhão no mundo, e o Brasil poderia ficar com boa parte deste valor.

É preciso, no entanto, provar o que se está fazendo, e essa nova economia não aceita direitos tão precários como os no Brasil. É imprescindível que se faça a lição de casa.

O país está à frente dos demais, uma vez que possui uma matriz energética mais limpa. Boa parte dos demais países têm, ainda, de se livrar do carvão e de outros produtos de origem fóssil, o que torna a passagem da economia deles para carbono neutro bem mais complicada.

O paraíso está à porta, diz o jornalista, parafraseando seu último livro “Brasil Paraíso Restaurável”.

Para o pecuarista Caio Penido, o produtor precisa assumir o protagonismo. É preciso criar valor na floresta e ser remunerado por isso. Além disso, é necessária uma agenda política para a produção sustentável.

Para Alysson Paolinelli, ex-ministro da Agricultura e indicado ao Prêmio Nobel da Paz deste ano, o Brasil não pode perder essa corrida.

O Instituto Agroambiental Araguaia é um novo braço das operações da Liga Araguaia. Fundada em 2015, a liga integra 62 fazendas, que adotam práticas de pecuária sustentável no Vale do Araguaia mato-grossense.

*Artigo publicado originalmente no portal Folha de São Paulo

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