Pavimentar o caminho da sustentabilidade

Pavimentar o caminho da sustentabilidade

Eduardo Bastos, ex-presidente do GTPS 

Tive a honra de presidir o GTPS por alguns anos e me lembro das tensões existentes entre os diferentes atores da cadeia de valor da pecuária, eram diálogos duros, mas sempre com o objetivo de chegar a um caminho comum. Brincávamos na época que todos sabiam o caminho que a pecuária precisava trilhar, mas que este estava muito tortuoso e esburacado. Era preciso então pavimentar a estrada que nos levaria ao futuro e, com ele, ao sucesso.

Hoje, nas vésperas de mais um momento eleitoral podemos ver esta necessidade de diálogo cada vez mais forte. Extremos tomando espaço e impedindo a maioria de ver o óbvio: em todas as relações humanas temos em torno de 80% de similaridades e 20% de divergências, o famoso Princípio de Pareto ou Regra dos 80/20. Vale para as relações, para os negócios, vale para quase tudo.

Como então achar estes 80% que nos unem ao invés de focar nos 20% que nos separam?

Um dos caminhos descritos pela academia está em priorizar 3 pilares-chave: Estratégia, Processos e Pessoas. Nesta ordem, nesta lógica.

Estratégia. Ainda faz falta ao país ter uma! Aliás, antes faltasse só na pecuária… A verdade é que não chegaremos muito mais longe do que já fomos, já estamos entre os maiores produtores e exportadores de proteínas animais, somos sim uma potência pecuária, assim como somos uma potência ambiental, mas, o que queremos como setor e país? Levando ao pé da letra – estratégia é uma palavra com origem no termo grego Strategia, que significa plano, método, manobras ou estratagemas usados para alcançar um objetivo ou resultado específico – o que queremos para a pecuária? Sermos o maior? O melhor? Sermos sustentáveis ou buscar sermos mais sustentáveis? Parece igual, mas não é.

Sustentabilidade não é algo absoluto e buscar ser 100% sustentável é uma utopia. Queremos ser mais sustentáveis, queremos melhorar todos os dias, aí sim é possível, para qualquer um, não interessa onde você esteja. Mas, é imprescindível ao setor dialogar mais com os atores que estão fora do dia a dia. No agro, gostamos de dizer que falamos muito e muito bem a nós mesmos. E os “outros”? Consumidores? Importadores? Chefs? Todos adoram um bom churrasco, não deveria ser tão difícil, não? Pois é, mas ainda nos vemos em brigas inglórias contra uma minoria barulhenta que prega segunda sem carne, proibição da caça de pragas (como javali) e o não embarque de animais vivos.

Faço aqui uma observação e um elogio: participo de uma comunidade de executivos que se relacionam com o Ministério da Agricultura por meio de whattsapp, nunca, e estou há mais de 20 anos neste setor, nunca vi uma mobilização tão forte quanto a do levante contra a proibição do embarque de animais vivos – provando que quando se tem um objetivo mais um plano de ação o resultado vem. Todos os outros setores poderiam se mobilizar assim e até a pecuária poderia se mobilizar em torno de outros temas. Mas sem sentarmos todos numa mesa, mesmo que virtual, nada acontecerá…

Processos. Uma sequência de atividades, basicamente é um “guia” de onde estamos e para onde vamos. Como diria o sábio “não há bons caminhos para quem não sabe onde vai”. Aqui a pecuária está em boas mãos, pois já tem o GIPS (Guia de Indicadores da Pecuária Sustentável) com seus 5 princípios – Meio Ambiente, Comunidade, Gestão, Cadeia de Valor e Trabalhadores. Quer saber como fazer? É só entrar na ferramenta, distribuída gratuitamente e checar se você está no caminho certo ou não. Você pode fazer sempre e se comparar ano a ano ou mesmo comparar com seus vizinhos e amigos, o famoso “benchmarking”. Não tem nenhuma reinvenção da roda. É colocar no papel onde queremos chegar e as ações necessárias para que isso aconteça. O GIPS pode ajudar nesta validação, indicar se o caminho está delineado e quais são as ferramentas necessárias para a empreitada.

Pessoas. Não custa reforçar, é imprescindível ter as melhores pessoas para desempenhar as funções/ações desenhadas nos processos. Aqui eu só reforço minha esperança na nossa pecuária, quando vejo a qualidade das pessoas envolvidas, sejam produtores, empresas de insumos, consultores, ONG´s, pesquisadores e uma gama enorme de outros atores deste setor tão relevante ao país. No tempo que fiquei à frente do GTPS vi gente que doava seu tempo (tempo da organização em que trabalhavam) de maneira apaixonada para fazer o setor cada vez melhor. Ainda vejo isso nos meus amigos que ficaram e nas novas pessoas que se juntam à causa todos os dias. Não é um esforço fácil, de todas as atividades que fazemos a mais sensível é a gestão de pessoas, por consequência, gestão das vaidades, dos gostos, dos conflitos. Mas aqui, mais uma vez, vale a regra de ouro dos 80/20. Se estivermos dispostos a entender os 80% que nos unem e deixar de lado os outros 20%, poderemos criar um ambiente melhor, mais propositivo e construtivo.

Se conseguirmos sentar numa mesa e francamente debater o que queremos (estratégia), como faremos para chegar lá (processos) e com quem iremos (pessoas) não só pavimentaremos esta estrada, mas conduziremos a melhor boiada já vista numa belíssima comitiva.

  • Eduardo Brito Bastos é Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP, foi Presidente do GTPS e atualmente é Diretor Executivo da AIPC (Associação das Indústrias Processadoras de Cacau), Presidente do Comitê de Sustentabilidade da ABAG e Membro do Conselho Executivo da Coalizão Brasil: Florestas, Clima e Agricultura.

 

By | 2018-10-01T15:29:52+00:00 outubro 1st, 2018|GTPS NA MÍDIA, Notícias|0 Comments

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