Os incomodados permaneçam, por favor!

Os incomodados permaneçam, por favor!

Francisco Beduschi, ex-presidente do GTPS

O Brasil foi o primeiro país a ter uma estrutura multistakeholder para discutir sustentabilidade na pecuária e, apesar dos esforços de divulgação dessa informação, muito poucos sabem disso. Foi também o primeiro a discutir uma estrutura de princípios e critérios para avaliar a sustentabilidade na pecuária, só demoramos mais que outros para concluir em função das complexidades que envolvem a atividade no país. Ao mesmo tempo, temos amparo legal para executar um monitoramento da cadeia produtiva: i- legislação ambiental rigorosa; ii- transparência dos dados públicos, ainda que não seja a ideal; iii acordos estabelecidos entre o Ministério Público Federal – MPF e a iniciativa privada para monitorar a cadeia produtiva. Ainda assim, os atores da cadeia estão insatisfeitos com o patamar que atingimos; mas, por quê?

Existe uma história popular sobre um cachorro que estava sentado em cima de um prego há tanto tempo que já se acostumara com ele. Somente quando as pulgas o incomodavam e ele se coçava é que o prego cutucava e doía, mas aí ele se acomodava novamente e seguia sentado no prego. Na pecuária brasileira, não participar da construção das soluções para as demandas do mercado, mesmo quando o status quo já não é mais a resposta que precisamos, é coçar a “pulga”. As pessoas/organizações se coçam para trazer algum alívio, reclamam da cutucada, mas continuam sentadas no prego.

Como engenheiro agrônomo, trabalho com pecuária há bastante tempo para entender minimamente a complexidade do setor e dos seus atores, e enxergar as muitas “pulgas” que incomodam cada um. A cadeia de valor da pecuária brasileira envolve diferentes biomas, pessoas e ambientes de negócio; tem ramificações no Brasil e no exterior; e uma legislação grande e intrincada. Isso por si só já a torna bastante complexa para desenvolver qualquer tipo de trabalho e neste contexto, é importante entender as origens desses incômodos para tomar o rumo correto. Porém, além de saber para onde ir, é preciso ter pessoas que queiram fazer dar certo, e o Brasil as têm.

Produtores grandes e pequenos, iniciantes e aqueles que já poderiam estar aposentados, estão dispostos a aprender e mudar seu modo de produzir. A indústria e o varejo estão abertos ao diálogo, querem se adaptar, inovar e ter um futuro próspero para seus negócios. Hoje, ONGs compartilham suas experiencias e capacidade de gerar conhecimento para viabilizar um futuro melhor. Técnicos e prestadores de serviço se unem e se organizam para disseminar conhecimento, habilidade e atitude. Instituições financeiras revisam o seu papel nas cadeias do agronegócio não apenas como agentes de financiamento, mas como agentes de mudança. Todos querem responder à pergunta: “Qual o meu papel na promoção de uma pecuária sustentável?”. Acho que é por isso que me sinto tão “em casa” no GTPS, onde há pessoas e organizações que querem esse futuro e estão dispostas a sentar à mesma mesa e trabalhar por isso.

Essa fé nas pessoas vem de duas frases que me marcaram muito: “É mais importante ser do que ter”, e “Aposte nas pessoas, não na tecnologia ou nas máquinas, mas nas pessoas”. A primeira ouvi de um amigo, produtor rural e médico, logo que cheguei ao Mato Grosso, e demorei muito para ter a minha própria interpretação dela. A segunda, veio de um professor da pós-graduação que tratava do tema administração de empresas e gestão de pessoas. Ao colocá-las sob o prisma do tema em pauta, acredito que podemos apostar nessas pessoas que querem fazer melhor, pois elas são capazes de construir esse futuro e mover uma cadeia tão grande como a pecuária brasileira.

Sendo assim, volto à pergunta do início para dizer que acho ótimo que as pessoas que trabalham na pecuária brasileira estejam insatisfeitas e que se manifestem assim. As razões por trás disso são diversas, mas são essas pessoas e organizações que vão colocar um pé para fora da zona de conforto, parar de reclamar das pulgas e não voltarão a sentar no prego. Portanto, contrariando o dito popular, peço: Os incomodados que permaneçam, por favor!

  • Por Francisco Beduschi, Engenheiro Agronômo pela ESALQ-USP, foi presidente do GTPS em 2017. Com mais de vinte anos de experiência no setor, atualmente Beduschi é especialista em agronegócio sustentável na National Wildlife Federation.
By | 2018-10-25T10:06:47+00:00 outubro 25th, 2018|GTPS NA MÍDIA, Notícias, Sem categoria|0 Comments

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